O CORDEL DO ABORTO

No pé da Serra da Onça - Alto sertão de Alagoas -

O povo gosta de loas
Mas tem a maior responsa:  
Criança, jovem e coroas
Discutem as coisas boas
E combatem gente sonsa.

Pois numa noite bem mansa,
A lua branqueando o Céu,
Foi de tirar o chapéu
E não perder na lembrança
O filho de Dona Bel
Enfrentou seu Miruel
Num assunto que não cansa.

Seu Miruel é ateu,
Do bem ele quer distância;
Homem cheio de ganância,
Rouba até parente seu.
Uma triste discrepância
Que deixa muitos na ânsia
De vê-lo comendo breu.  

Além de tudo é perverso,
Sem ética nem moral;
É mesmo gente do mal,
Mas está no Universo;
E seu maior ideal
É ver uma lei fatal
Nascer num novo processo.  

Ele defende o aborto,
É homem muito falante,
Tem um tom repugnante
Mas não quero lhe ver morto;
Quero que ele se espante
Com a verdade de Dante
Que é matar um zigoto.  

Ao vê-lo todo exaltado,
O filho de dona Bel
Que nunca foi bacharel
Nem tinha sido testado,
Olhou a barra do Céu
E até quem tava ao léu
Foi ouvir o seu recado:  

- Neste dia iluminado
Da minha amada vida,
Esta pendenga sofrida,
Cheia de arrazoado,
Ganha a maior guarida
Para ser bem referida
Neste momento rimado.  

- Pois neste mundo malvado,
De tanto conceito torto,
Vou também falar do aborto,
Que está sendo analisado
Da roça ao cais do porto,
Temos muito bebê morto
E outros sendo assassinados.  

- Alguém terá desconforto,
Mas quero falar da vida
Que é sempre concebida
Como semente no horto,
Quando a mãe engravida
No instante dá guarida
Ao pequenino zigoto.  

- Não sei por quê se duvida
Daquele exato momento
Onde surge o rebento
E a pessoa é concebida;
Nem mesmo o mais avarento
Teria outro pensamento
Sobre aquela nova vida.  

Ao ver o homem rimando
O povo ficou feliz,
Pois um simples aprendiz
Estava ali ensinando
O que a gente boa diz
No templo e na matriz
E ele foi assimilando.  

É mesmo sinal dos tempos
Tamanha aberração,
Pessoas sem gratidão
Que um dia foram rebentos,
Mas defendem punição
Pra quem não tem condição
De defender um intento.  

Depois da vida formada
Seus direitos se garantem;
Nem mesmo o mais falante
Consegue mudar mais nada,
Pois se mudar é mandante
De um crime horripilante
Contra a vida iniciada.  

Não pode ter exceção,
Nem ser regulamentada,
Se não pode fazer nada
Durante a operação
A mãe pode ser poupada
Mas a criança gerada
Também precisa atenção.  

- O que ocorre, entretanto,
É que a coisa é diferente,
Pois tem muito delinqüente
Deixando gente em pranto,
Fazendo aborto indecente
Traumatiza nossa gente
Ou manda pro campo santo.  

O filho de Dona Bel
Que tem pequeno apelido
É conhecido por Dido
Falou até de bordel
Foi bastante aplaudido
E se já era querido
Virou rival de Miruel.  

- Aborto é incompetência
De pretensos governantes
Que podem ser bem falantes
Mas inventam na ciência
Motivos extravagantes
Pra matar feito marchantes
Muitos fetos, sem clemência.  

O filho que foi gerado
Precisa mesmo nascer
Seu direito de viver
Tem de ser assegurado
E o país tem que fazer
Toda segurança ter
Pra não ser prejudicado.  

Para evitar o aborto
Tanta gente sem apego
Só precisa de sossego
Não pode fingir de morto
Saúde, escola, emprego,
Formam o melhor arrego
E acaba este ideal torto.  

A questão é complicada
De saúde e de moral
Em busca do ideal
Tem gente desesperada
Pois no âmbito legal
Também precisa de aval
Debaixo daquela espada.  

Assunto tão vasto assim
Precisa de discussão
Para não ficar na mão
Ou pra não passar por ruim
Vamos ter reunião
Para saber a razão
De tanto aborto enfim.  

Aborto é assassinato
De pequeno ser humano
Um gesto muito tirano
Um triste e horrendo fato
Pois o feto com os anos
Sem perigo de enganos
Pode ser Messias nato.  

Uma criança, um filho,
É o que o feto é
Na barriga da mulher
Pode não ter todo brilho
Pois quando em Nazaré
Maria provou a fé
Jesus não foi empecilho.  

Quem pode dispor na vida
Da vida de outro alguém?
Eu não conheço ninguém,
Pessoa tão atrevida
Que tenha tanto desdém
Para fazer algo além
Dessa missão recebida  

Uma nova vida humana
Não pertence a ninguém
Nem mesmo a mãe detém
A potência tão profana
Pegar futuro nenén
Matar um Matusalém
Que dura poucas semanas  

Miruel estava calado,
Ouvia a rima do Dido
Mas com um tom atrevido
Resolveu dar um recado
Que o aborto tinha sentido
Pois ele tinha ouvido
A fala de um deputado.  

Dido então se concentrou
E virou-se pro seu lado
Com um tom emocionado
Rapidamente pensou
E naquele seu rimado
Sem se sentir rebaixado
Mais uma rima mandou:  

- Já pensou, seu deputado,
Se a sua genitora
Fosse uma abortadora
Quando o senhor foi gerado?
O Brasil outro seria
O senhor não viveria
Tinha sido assassinado.

Mostrando conhecimento
Dido estava inspirado
E Miruel, meio acuado,
Já estava meio bufento
Já que tinha começado
Ficava todo animado
A cada novo momento.  

Ninguém sabe de onde veio
A carga de informação
Talvez da televisão
Pois ele nunca fez feio
Assiste a programação
Se liga até no plantão
E nunca tem aperreio.  

O jovem continuou
Sua bela prelação
Naquela situação
O aborto ele taxou
De morte sem compaixão
Pois lá na fecundação
A vida já se formou.  

Aborto é infanticídio
Pois a mãe mata o filho
Que considera empecilho
Isso também deu no vídeo
Mas é também um martírio
Não digam que é delírio
Pois é tudo homicídio.  

Tem quem diga que o aborto
É uma “interrupção”
Isso não é nada são
Por resultar em bebê morto
É uma intervenção
Sem qualquer contemplação
Deixa Miruel num oito.  

Se trata de defender
Quem não pode protestar
Pois gerado já está
Deseja sobreviver
Mas alguém quer lhe matar
Se sua mãe abortar
Seu direito é só sofrer.  

Além de ser natural
A ida tem algo mais
Deus disse “Não matarás”
Como lembra o Cardeal
O pastor não fica atrás
Diz que é o Satanaz
Que provoca tanto mal.  

A ciência comprovou
Algo ainda mais triste
No feto o sistema existe
E ele sente muita dor
Mas a maldade persiste
O desumano não desiste
E anestesia indicou.  

Sei que não falei de tudo
Disse Dido a Miruel,
Mas mostrei que é crurel
Você ficou meio mudo
Quem sabe se esse cordel
Não tira você do fel
E lhe faz menos sizudo?  

Miruel se concentrou
Para dar sua resposta
Com a voz sempre imposta,
Mas uma lágrima rolou;
Como quem perde uma aposta
Ele admitiu que gosta
Do que Dido lhe falou.  

Disse que ia refletir
Sobre coisa tão exata
Que seu amigo relata
Sem intenção de ferir
Sabe que aborto mata
E agora até se retrata
Querendo se redimir.  

Dido então se despediu
Abraçando Miruel
Seu jeito de coronel
Parece que se esvaiu
Os dois olharam pro Céu
E como quem toma um mel
A dupla então se uniu.  

Agora a causa da vida
Ganha um grande aliado
O homem chegou vaiado
No fim já tinha torcida
E aquela idéia sonhada
Pode ser realizada
Já está sendo aplaudida.

Autor Desconhecido -
(procura-se autoria)

 

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